domingo, Agosto 03, 2008

Manuel Pereira da Silva, a imagem e a poética do ser humano

A obra de Manuel Pereira da Silva é fruto de 60 anos de processo contínuo, que resultou em uma linguagem artística perfeitamente adequada à sua expressão plástica. Para perceber sua poética é necessário compreender, ao mesmo tempo, as imbricações da concepção estética, a criatividade da imagética e o percurso de sua produção, manifestadas em meios expressivos diferenciados e em variações técnicas que nos auxiliam, inclusive, na compreensão da arte contemporânea.

Com um percurso que se inicia ainda na década de 1940, Manuel Pereira da Silva se revela e nos desvenda seus caminhos, através do desenho, da pintura, de aguarelas e guaches, painéis e murais; utilizando além do suporte tradicional, outros como a madeira, a cerâmica e, essencialmente, da escultura, potencializada a pedra de ançã e o bronze. Mas, a produção estético-artística que avalia sua poética é aquela do desenho, em que deve ser considerado um dos mais significativos artistas da actualidade, e o da pintura, na qual se encontra seu estrato estilístico e onde se pode aferir sua excepcional qualidade de poeta da imagem.

Este escrito não pretende analisar a extensa produção de Manuel Pereira da Silva, procurará, isto sim, ressaltar alguns aspectos que possam caracterizá-lo como artista de seu tempo. Para melhor definir o processo, podemos nos valer de um outro aspecto, em incursão ao seu vocabulário artístico, o do estranhamento. São centenas e centenas de pinturas e desenhos: retratos e alegorias, cenas surreais e registros históricos, em que predomina a figura humana – a mais das vezes a feminina –, transformadas em seres fantásticos que povoam seus sonhos e que nos sobressaltam. Para penetrar esse mundo, concluímos que um critério é necessário, o de reunir o conjunto em núcleos expressivo-simbólicos e através de algum parâmetro, que pode ser o temático, propor analogias entre o real e o emblemático; ou ainda através do procedimento técnico, para perceber sua visão particular de mundo, que se transmuta em relação expressiva entre o ‘motivo’ e o artista.

O desenho em Manuel Pereira da Silva


Para o saber da obra de Manuel Pereira da Silva é imprescindível iniciar pela apreciação de sua obra gráfica, em especial o desenho, que engloba conjunto riquíssimo de sua imagética. Parece que ele se deleita em sua criação. Mesmo os esboços – a grande maioria não possui esse carácter – têm autonomia, reflectem miríades de possibilidades de seu vocabulário estético e servem como base para pinturas ou esculturas, pois têm valor próprio, na galeria de valores que o artista elege como parti pris de sua actividade. Porém, é justo registrar que, seu contínuo exercitar provê a necessária praxis – entendida aqui como a actividade que transforma os meios ou a produção – para a pintura, e é realimentado por ela.




1957, Grafite sobre cartolina.

Manuel Pereira da Silva sempre teve uma queda natural para o desenho, somando proporções geométricas e áureas, matemática e perspectivas. O desenho da figura humana, especialmente a feminina, em suas prolongadas linhas, à maneira art déco, revela uma síntese perfeita entre a sensibilidade e o apuro milimétrico na construção espacial. Ele sabe como ninguém usar o papel como suporte, como base de sua expressão, aliando a isto o completo domínio da técnica e das ferramentas que utiliza. Com apenas alguns traços constrói figuras, mundos peculiares. Cada instrumento é como se fora parte de seu corpo, uma extensão de sua mão e de sua sensibilidade.




A linha é referência para o entendimento do desenho em Manuel Pereira da Silva. Sabe cria-las puras, simples, sem requintes, nem desperdícios analíticos, cheias de substância, graves. A linha grande imóvel que é da essência da plástica no plano, e o primeiro segredo do seu dinamismo. Manuel Pereira da Silva possui esse poder de simplificação dos traços e de sintetização das formas. Domina com facilidade os elementos formal-construtivos: simetria estilística, harmonia poética, equilíbrio estético, onde o branco do papel é parte da arquitectura imaginária.
Em seu fazer o artista trabalha com aguadas, bico-de-pena, esponja-do-mar, bastonetes e os mais variados procedimentos técnicos para nos brindar com sua criatividade vigorosa. Sua obra emerge em linhas concisas, rápidas, densas, finas; contínuas, de ritmos silenciosos e formas universais, num desenho sempre espontâneo, no entanto bem elaborado, que exprime sua concepção de arte e de beleza. Aspira à concisão de meios na procura única e exclusivamente da uma proposta estética, valendo-se de traços espessos para a conquista de eficácia comunicativa; ou delicados, para estruturas rítmicas. Longas linhas, de traço único, transformam-se em figuras lúdicas, fantásticas, alegóricas e até anedóticas. O espaço branco é sabiamente organizado e depositário do seu/nosso inconsciente colectivo e cósmico, particular e universal. A linha, a figura, a trama colocada num ritmo de beleza e harmonia se fundem, tornando difícil a interrupção da leitura de um desenho para passar ao seguinte! Em todas as mostras que Manuel Pereira da Silva realizou lá esteve sempre uma parcela de sua obra gráfica, como a dizer, sem o desenho o artista não poderia existir.





1981, Esferográfica sobre cartolina.



A obra pictórica de Manuel Pereira da Silva

Para entrar no mundo pictural de Manuel Pereira da Silva, adoptamos um critério abrangente que inclui núcleos simbólico-expressivos, formais, conceptuais, procedimentos técnico-poéticos. A leitura da obra de Manuel Pereira da Silva exige liberdades múltiplas e uma análise estética livre de comprometimentos, nas quais se deve considerar a realidade perceptiva e transformacional da pintura pela própria acção da arte. A necessidade de se descobrir ou dar sentido a uma obra de arte é uma exigência de entendimento da própria expressão estética e uma forma de introduzir ao público o mundo particular do artista. Hoje, os critérios de apreciação estética, bastante abrangentes, voltam-se mais para a fruição da obra. Segundo Donald Meltzer (The Aprehension of Beauty, 1989), a apreciação de uma obra de arte, o reconhecimento de seu valor estético, deve passar também pela emoção. E, francamente, não é possível uma análise da obra de Manuel Pereira da Silva sem o enfoque emocional.
Apesar da sua formação clássica, Manuel Pereira da Silva, influenciado pelas novas correntes que irromperam em Paris de forma um tanto irreverente, que mais se acentuaram após o termino da guerra de 1939/45, também tentou substituir a riqueza de linhas, de feição tradicional, baseada na perfeição da anatomia humana, por uma geometria de linhas, procurando, de certo modo, assimilar a doutrina revolucionária de Georges Braque e de Pablo Picasso imposta a partir da primeira década do século XX. Mas, sua obra tem princípio e se representa através de um rico mundo interior, de uma imaginária excepcional e representativa de um intelecto febril, sempre de prontidão, em busca de novas imagens e significados. A poética de Manuel Pereira da Silva é alimentada por esse universo e pela praxis do fazer artístico, que se auto-revigoram. Sua realidade perceptiva transforma matéria, cores e formas resgatando cada ideia e articulando-a com outras para a metamorfose final.




Alguns dos colegas de Manuel Pereira da Silva foram figuras que enriqueceram de forma substancial a Arte Portuguesa: Arlindo Rocha, Júlio Resende, Nadir Afonso, Eduardo Tavares, Fernando Fernandes, Aureliano Lima, Reis Teixeira, Fernando Lanhas, Jorge Vieira, António Sampaio, Guilherme Camarinha, entre outros. Uma boa parte deles fizeram parte do "Grupo dos Independentes" que segundo o pintor Júlio Resende "Entre camaradas gerava-se um movimento de inconformismo face à passividade do burgo. Foi no sentido de contrariar esta situação que entre nós cresceu a ideia de formação do «Grupo dos Independentes». «Independentes» quanto aos posicionamentos estilísticos."
"As Exposições Independentes" do Porto marcam um momento histórico significativo da nossa Pintura. Primeiro, porque reúnem pintores de formação diferente (a razão de ser da palavra "independente" vem da não filiação num "ismo" particular), empenhados numa igual acção colectiva e mergulhados no mesmo entusiasmo".
Egídio Álvaro – Fernando Lanhas na origem da pintura abstracta em Portugal, as "Exposições Independentes".
in Museu de Serralves – Fernando Lanhas. Porto, Edições Asa.


Na obra do escultor Manuel Pereira da Silva reconhecem-se duas orientações, distintas nos respectivos propósitos estéticos: as peças concebidas em conformidade com a tradição académica do século XIX europeu, em geral respondendo a encomendas, e aquelas que, conservando de uma forma essencial a figura humana como referente, se afastam da sua representação naturalista, antes obedecendo a critérios formais de sentido abstracto, exercitando uma das vias pelas quais o modernismo acedeu à abstracção pura, entendida esta como a criação de formas nas quais não se evidencia, ou não existe de facto, referente figurativo.


São dois géneros de expressão autónomos na formulação das respectivas linguagens, numa dualidade assumida como a resposta (necessária e possível), quer às solicitações ideais do artista, quer à sua percepção das expectativas dos clientes que lhe foram surgindo. Esta dualidade percorre, como vias que se cruzam, toda a produção de Manuel Pereira da Silva o qual, sem subalternizar a execução de encomendas de expressão plástica mais tradicional, sempre se manteve, em alternância, fiel praticante da ideia de criar uma escultura mais original e mais de acordo com um permanente desejo de modernidade, experimentação e descoberta, numa atitude que o próprio escultor afirmou de ser de "inquietação e fuga à repetição".

1959, Gesso sobre estrutura de alumínio.


Assiste-se de facto, a uma alternância entre dois critérios estéticos, significante da persistência de um conflito, vivido na aceitação humilde dos limites de uma situação social e cultural concreta – e isto ajusta-se bem à personalidade de Manuel Pereira da Silva, sempre procurando equilibrar, ou mesmo compensar, Realismo e Idealismo, entendidos, de forma muito chã, quer como condimentos da sensatez com que a assunção das contingências da vida deve ser temperada, quer como manifestações superiores de uma polaridade dinamizadora do próprio empreendimento artístico, enquanto fenómeno enraizado na vida, como uma totalidade e expressão síntese dela mesma.
Realismo e Idealismo são os pólos complementares omnipresentes na atitude profunda de Manuel Pereira da Silva e, assim, responsáveis também, em simultâneo com factores de conjuntura histórica, pelas expressões plásticas recorrentes na sua produção.
De facto, se as esculturas de Manuel Pereira da Silva mais conformes a tradição, concretizaram, em geral, funções previamente definidas no contexto do relacionamento do artista com os seus clientes e tiveram uma versão definitiva com destino público, já foram poucas, infelizmente, as oportunidades para converter à perenidade dos materiais resistentes e à colocação em espaços apropriados, as formas "abstraccionistas" que criou, apesar de, a maioria delas, serem possuidoras de um carácter de monumentalidade que não deixa dúvidas sobre a ambição que as anima: serem ampliadas para as dimensões convenientes, vazadas nos materiais adequados e colocadas em grandes espaços públicos.
Carga simbólica que merecesse a atenção de eventuais promotores do enriquecimento do património artístico público, não falta a essas composições escultóricas, quase sempre inspiradas no grupo Homem / Mulher – mas felizmente isentas do panfletaríssimo que as tornaria maçadoramente piegas ou moralistas – e seriam, do ponto de vista do significado explícito ou sugerido, mais do que pertinentes num contexto de apelo à solidariedade e à fraternidade.
As primeiras esculturas modernistas de Manuel Pereira da Silva surgiram nos anos pioneiros do abstraccionismo escultórico em Portugal, reconhecidamente protagonizado, a partir do final dos anos 40, no Porto, por Arlindo Rocha, Fernando Fernandes e ainda, alguns anos depois, por Aureliano Lima, a partir da sua mudança de residência para esta cidade. Estes factos conferem, à produção abstracta de Manuel Pereira da Silva, realizada, até com óbvia analogia estilística, no mesmo período e em situação de convívio com os referidos escultores, inquestionável enquadramento geracional, que importa reconhecer.
Arlindo Rocha e Manuel Pereira da Silva foram colegas de curso na Escola de Belas Artes do Porto e até esporadicamente companheiros no atelier do escultor Henrique Moreira, aos Guindais, como o regista a fotografia publicada na Pereira da Silva Art Gallery da responsabilidade do então muito popular repórter fotográfico de "O Primeiro de Janeiro", António Silva.


Quanto a Fernando Fernandes, também da mesma geração académica, ele foi além de colega de curso, companheiro de Manuel Pereira da Silva na aventurosa estadia em Paris em 1947 e 1948, juntamente com o Pintor Júlio Resende e o Escultor Eduardo Tavares que veio a ser utente do atelier de Manuel Pereira da Silva na Rua da Restauração, o que igualmente se verificou, mais tarde, com o Escultor Aureliano Lima e o Pintor Reis Teixeira.




Pintor Reis Teixeira, busto da autoria de Manuel Pereira da Silva.
Este convívio funda-se numa identidade de interesses e preferências artísticas, expressos na comum participação em exposições colectivas e na, por vezes óbvia e frequente, analogia formal das respectivas obras.
Assim, portanto, aos nomes de Arlindo Rocha, Fernando Fernandes e Aureliano Lima, habitualmente citados como introdutores, em Portugal, do abstraccionismo escultórico, terá que se acrescentar o nome de Manuel Pereira da Silva.
Essas esculturas de pendor abstraccionista, mas que dificilmente se despegavam dos referentes iconográficos, podem hoje parecer-nos timidamente inovadoras e pouco ou nada "atrevidas". Elas testemunham, no entanto, o esforço de vanguardistas que contaminou, de vários modos, e sobretudo no período imediatamente subsequente ao fim da II Guerra Mundial, a produção de um restrito número de artistas, empenhados na modernização da expressão artística. Ora Manuel Pereira da Silva pertence, efectivamente, a esse pequeno núcleo de renovadores.
De facto no período imediatamente subsequente à II Guerra Mundial, precisamente aquele em que teve início a actividade profissional de Manuel Pereira da Silva, verificaram-se alterações, importantes, no universo das polémicas artísticas, nomeadamente nos dois maiores centros urbanos portugueses: à querela "clássicos e modernos", acrescentou-se o debate entre os adeptos da modernidade – neo-realistas, surrealistas e abstraccionistas – mas foi quase sempre no recato dos atelier que alguns, pouquíssimos, escultores inquietos, ensaiaram novos caminhos para a sua Arte, em produções que esparsamente vieram a público, e que este, para lá de uma reduzida elite, longamente ignorou.
Humildemente dividido entre um sonho sem limites e as realizações confinadas às dimensões de uma clientela esparsa, modesta de recursos materiais e pouco sedenta de novidades estéticas ao que ainda hoje não manifesta vocação. Manuel Pereira da Silva prosseguiu, sem desfalecimento, confinado na possibilidade de preservar a sua energia criativa mais independente, libertando-a em criações abstractas que conheceram a luz do dia, alternadamente com a realização de encomendas, obedientes estas a padrões estéticos mais convencionais.
Durante os dois anos que esteve em Paris que vivia então um período de renovação espiritual e artística que se espalhou por todo o mundo, Manuel Pereira da Silva conseguiu assimilar de certo modo as técnicas revolucionárias de Picasso, Salvador Dali e Miró. Nesta altura, descobre, também, os grandes mestres do Louvre.


Retratos

A galeria de retratos, e são muitos, denota o fascínio que a mulher exerce no imaginário do artista. Muito do seu vocabulário estético envolve, como já me referi, a figura feminina, tratada nos seus mais variados aspectos, como a mulher-matriarca, a mulher-guerreira, a mulher-ideal, a mulher-desejo, todas detentoras de um poder que ultrapassa a sua própria percepção e representação de mundo. O simbolismo desta Figura é mostrado claramente em seu tratamento formal – sempre uma figura de destaque, seja solitária ocupando quase todo espaço pictural, a madona, ou acompanhada de uma figura masculina em menor dimensão que lhe dá ainda maior vulto, a matriarca; ou com elementos composicionais que valorizam sua forma e conteúdo, mulher ideal, ou arquitecturalmente construída um pouco à maneira renascentista; ou através de um cromatismo denso, com formas arredondadas e traços alongados e deformados, juntados a códigos de bem e mal, para evidenciar sua poética da mulher-desejo; ou na série de pinturas sobre santas guerreiras. Todas elas guardam um olhar perdido, que se desvia, a maioria das vezes, de seu interlocutor, é a fórmula de estranhamento que transforma sua imagem e sua poiesis.


Baixos-relevos, esculturas e frescos: a valorização do ser humano
Artista de seu tempo, Manuel Pereira da Silva não se furta a colocar sua arte a serviço da comunidade. Esculpe diversos baixos-relevos para instituições governamentais e particulares e executa, não só na cidade do Porto, para o Coliseu, Teatro Rivoli e Palácio da Justiça, mas também para outras cidades como Viana do Castelo, Luanda, em Angola, e Bolama, na Guiné-Bissau.






O Palácio da Justiça do Porto foi inaugurado em 20 de Outubro de 1961. Possui uma valiosíssima decoração artística, quer interior quer exterior, confiada a alguns dos melhores Pintores e Escultores Portugueses, num total de vinte e três, que executaram cinquenta baixos-relevos, pinturas a fresco e tapeçarias. Estas obras de arte contemporânea da mais variada concepção integram-se num pensamento comum de representação plástica: a Força do Direito como razão profunda da realidade nacional. O baixo-relevo em granito do escultor Manuel Pereira da Silva, na sala de audiências do 3ºJuízo, faz-nos remontar às origens da nacionalidade e mostra-nos o Bispo do Porto, D. Pedro Pitões, no terreiro da Sé, exortando os cruzados a ajudar D. Afonso Henriques na tomada de Lisboa. Participarão na decoração do edifício, além de Manuel Pereira da Silva, os escultores Euclides Vaz, Leopoldo de Almeida, Sousa Caldas, Salvador Barata Feyo, Lagoa Henriques, Gustavo Bastos, Irene Vilar, Maria Alice da Costa Pereira, Henrique Moreira, Eduardo Tavares, Arlindo Rocha e os pintores, Martins da Costa, Coelho de Figueiredo, Severo Portela, Amândio Silva, Martins Barata, Dordio Gomes, Guilherme Camarinha, Isolino Vaz, Augusto Gomes, Júlio Resende e Sousa Felgueiras. No baixo-relevo para o Palácio da Justiça do Porto, Manuel Pereira da Silva é o artista de concepção mais moderna de todos os que colaboraram em obras de escultura. Numa simplicidade de linhas, D. Pedro de Pitões apresenta-se rodeado de algumas figuras de Cruzados que procuravam ir para terras do Oriente combater os infiéis. Há uma abundância geométrica, quer nas vestes episcopais, quer nas armaduras dos guerreiros. Mas compreende-se o porquê deste seu anseio. Espírito em formação criativa, ele queria uma pista de identificação artística que fosse o seu próprio sinete.





"África" Cerâmica Policromada, Manuel Pereira da Silva realizou este baixo-relevo, em faiança policromada, destinado à decoração da fachada de um edifício situado na marginal da Baía de Luanda, Angola. Para o efeito Manuel Pereira da Silva improvisou atelier numa arrecadação industrial desocupada, nos arredores do Porto. Tal com no baixo-relevo do Palácio de Justiça idêntico tratamento teve o baixo-relevo executando para Angola em que há uma abundância geométrica. As figuras dos gentios, a flora e os animais espalham-se pelo imenso trabalho numa concepção moderna que Manuel Pereira da Silva procurava impor às suas obras.



“A Paixão de Cristo” Frescos da Capela Mor da Igreja de Stª Luzia, Viana do Castelo. A Capela-mor em círculo e a cúpula esférica foram povoadas de figuras ligadas à Paixão de Cristo, sendo o friso da base segmentado em quadros alusivos ao drama da Paixão, num colorido suave e de linhas modernas que se identificavam plenamente com o dramatismo comovente da tragédia do calvário, sendo a cúpula, mais de carácter espiritual, preenchida com a figura de Cristo em ascensão gloriosa, rodeado de anjos que empunham flautas, numa concepção perfeita e de rara espiritualidade.



Estátua a Ulysses Grant, vencedora do concurso público lançado para o efeito, pelo Ministério do Ultramar, erigida frente ao edifício dos Paços do Concelho de Bolama, na Guiné-Bissau. Ulysses Grant foi um general e estadista americano, nascido em 1822 e falecido em 1885. Andou na Guerra do México, em 1847, e participou activamente na Guerra da Secessão, lutando ao lado dos Nortistas, tendo dado o golpe de misericórdia aos Sulistas em 1865. Candidato a Presidente dos Estados Unidos, venceu por maioria esmagadora, tendo governado de 1868 a 1876, como 18ºPresidente. De 1877 a 1880 fez uma viagem triunfal em volta do mundo, onde foi sempre calorosamente recebido. Pois foi este famoso estadista que defendeu abertamente a posse da Guiné para Portugal. Em memória de alguém que, sendo grande, soube advogar com generosidade uma causa justa, o Governo Português encomendou a Manuel Pereira da Silva a respectiva estátua que, não obstante os ventos revolucionários da independência guineense, ainda se encontra no mesmo lugar.


À guisa de conclusão


Para se falar da arte de Manuel Pereira da Silva, este escrito não seria suficiente. Estas são nada mais do que algumas pinceladas sobre seu trabalho. Manuel Pereira da Silva elabora um panteão rico de elementos humanos – a paisagem não lhe interessa de perto, são quase um detalhe em sua obra, com uma poética pessoal, expressa de forma puramente pictórica, vazada nos moldes de um conceito e linguagem próprios. Penetra em profundidade na essência de seu objecto de interesse: composições com belos ritmos de linha, formas e cores. Construção lógica do espaço expressa, inclusive, por elementos abstractos. Sentimento poderoso da natureza sensorial do instante e da hora. A obra de arte é na sua essência um instrumento para a criação, que deve ser usufruída não só pelo artista, mas também pelo espectador. Manuel Pereira da Silva demonstra que isto é completamente possível, através de uma caligrafia própria, na qual empenha seu conhecimento e imaginação. Cria um mundo onde pode e nos faz poder viajar para além das fronteiras de nosso intelecto e de nossos sentimentos, deixando livres nossa compreensão e percepção. Há em sua obra uma continuidade admirável de pesquisa, que evidencia o crescimento de uma personalidade autêntica, que não se preocupa em acompanhar o gosto do momento, se para isto tiver que abrir mão de sua poética fantástica. A obra de Manuel Pereira da Silva tem uma orientação formal abstracta inspirada na figura humana, em particular o homem e a mulher.